Quando comecei a pesquisar sobre esse tema, tive a certeza de que em meus três partos sofri violência obstétrica.

Fizeram episiotomia (corte no períneo).

Fizeram tricotomia (raspagem dos pelos).

Fizeram enteroclisma ( lavagem intestinal).

Romperam minha bolsa.

Aplicaram ocitocina para acelerar as contrações.

Não tive meus filhos ao meu lado, logo após o nascimento.

 

Todos esses procedimentos são considerados violência obstétrica. E eu não sabia. Pelo menos até pouco tempo…

Muitas vezes, nós mulheres, nem sabemos que aquele procedimento médico que está sendo utilizado é violento. Achamos que é normal.

Sentimos que nos entristece, nos constrange, chateia, nos causa dor física e psicológica, mas como não temos informação, concordamos em sofrer sem questionar.

Calamos.

Após tanto tempo desde minha última experiência com gravidez e parto, percebo o quanto ainda muitas mulheres sofrem deste mal.

Ainda não está tudo bem. Ainda há mais violência obstétrica acontecendo do que gostaríamos.

Apesar disso, hoje, ao menos, temos informação.

E contra aquilo que conhecemos, é possível lutar, questionar.

Em tempo: claro que, há casos em que essas condutas são necessárias, porém, sabe-se que elas tornaram-se práticas comuns e, muitas vezes, feitas sem uma justificativa aceitável.

 

Violência Obstétrica – conhecendo para evitar!

O dossiê elaborado pela rede de mulheres Parto do Princípio conclui que 25% das mulheres sofrem algum tipo de agressão ou ofensa durante a gestação ou no momento do parto.

É o que chamamos de violência obstétrica.

Mais comum do que se imagina, muitas mulheres sofrem caladas, acreditando que tais procedimentos são normais.

Para que essa realidade mude, precisamos mais do que nunca, conhecer as situações em que é caracterizada a violência obstétrica.

E a partir, daí rejeitar qualquer tipo de tratamento que desrespeite, despreze, machuque, magoe ou desconsidere os sentimentos e escolhas da mulher.

Conforme estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o problema da violência obstétrica está muito presente no Brasil

Os números dessa pesquisa nos mostram uma realidade preocupante:

52% dos partos feitos pelo SUS são cesáreas. Em hospitais das redes privadas, essa porcentagem chega aos 88%. A OMS recomenda que esse índice não ultrapasse os 15%.

Mas o quê ou quais os procedimentos que, muitas vezes, a mulher sofre, que podem ser considerados como violência obstétrica?

Na maioria das vezes, a própria mulher, não reconhece que está sendo vítima da violência obstétrica.

São atos de negligência, assédio moral e físico, abuso e desrespeito com a gestante que são retratados em diversas situações.

 

Conheça algumas dessas situações que caracterizam a violência obstétrica:

 

  • Agendamento de cesárea sem qualquer evidência médica, sem o desejo da mulher e por conveniência do próprio médico.
  • Recusa por parte do hospital em atender a gestante que está em trabalho de parto.
  • Humilhar, constranger, xingar a mulher ou seus familiares
  • Fazer a episiotomia ou corte no períneo. Vários estudos mostram a ineficácia desse procedimento. A pesquisa da Fiocruz apontou que em cerca de 56% dos partos essa prática é utilizada.
  • Fazer a manobra de Kristeller, que consiste em empurrar a barriga da grávida para facilitar a saída do bebê. Ela está presente em 37% dos trabalhos de parto no Brasil.
  • Impedir que a mãe entre em contato com o  bebê logo após o parto. Exceto em casos que esse procedimento coloque em risco a vida da mãe ou do bebê.
  • Negar ou deixar de oferecer algum alívio para a dor.
  • Fazer exames de toque sucessivos e por diferentes médicos, utilizar procedimentos para acelerar o trabalho de parto, fazer tricotomia (raspagem de pelos), enteroclisma (lavagem intestinal) são consideradas práticas violentas.
  • Não permitir a presença de um acompanhante escolhido pela gestante. Trata-se de uma lei federal.
  • Impedir ou dificultar o aleitamento materno.

Como você pode prevenir e, se necessário, denunciar a violência obstétrica?

Importante saber que há leis que protegem mulheres vítimas desse tipo de violência.

Exija cópia de seu prontuário junto à instituição de saúde onde foi atendida. Esta documentação pertence à você, paciente.

Toda mulher que se sentir violentada, desrespeitada durante seu pré natal ou trabalho de parto pode e deve procurar ajuda através:

 

  • Da ouvidoria dos serviços de saúde.
  • Defensoria Pública, independente se você usa serviço público ou privado.

 

180 – Violência Contra a Mulher

136 – Disque Saúde

defensoria.sp.gov.br

Núcleo de Serviço Especializado de Promoção e Defesa da Mulher

Rua Boa Vista 103 10 and.

11-3101-0155 r. 233 e 238

 

Há algumas propostas que estão tramitando no Congresso Nacional que visam promover o parto com respeito:

Projeto de Lei 7633/1 – encontra-se na Câmara dos Deputados. Visa, entre outras coisas, que os profissionais de saúde e médicos forneçam assistência humanizada à mulher. Recomenda a utilização do parto cesáreo em um limite de 15% dos partos realizados no país, como recomenda a OMS.

Projeto de Emenda à Constituição 100/15 – capacitar o SUS com equipes multiprofissionais com o objetivo de dar atenção integral à gestação desde o pré- natal até o pós- parto.

Projeto de Lei 359/15 – oferecer cursos para parteiras tradicionais e doulas.

 

A grávida deve ter tratamento digno e humanizado.

Os profissionais da saúde devem respeitar suas escolhas, suas diferenças, seu ritmo, acolhendo e esclarecendo tudo aquilo que é seu direito saber.

O diálogo e a informação  são fundamentais para que as práticas que serão oferecidas sejam as melhores para ela e para seu bebê.

 

Conte-nos como foi seu parto!

Você considera que pode ter sofrido de violência obstétrica?

Sua mensagem é muito importante!

 

Postado Por Dione Sitibaldi

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